quinta-feira, 5 de maio de 2016

Cadeia Alimentar


A música parece sempre a mesma para mim agora. Sentada na mesma boate em outra noite de sábado sem sentido, eu já nem me importo mais se o som é Funk, Axé, Pagode, Sertanejo Universitário, Arrocha, Eletrônico ou Rock. Não consigo nem mais diferenciá-las. Os mesmos ritmos pulsantes sacodem as janelas revestidas de preto da casa noturna, os mesmos corpos jovens e esguios se contorcem sob a ribombante batida da música e, mais uma vez, eu cuido da minha cerveja aguada, olhando para a massa de carne suada diante de mim (como já fiz em tantas noites passadas... noites de mais para se contar).

O preto ainda está na moda (como sempre). Então eu me sento em um canto, com a minisaia de couro preto comprimindo desconfortavelmente as minhas coxas. Quando eu era mais jovem, como essas outras mulheres – garotas – na pista de dança esta noite; minhas pernas eram meu maior patrimônio! 

Agora eu só tenho um...

Bem... vocês sabem...

Um grande traseiro aquecendo um banquinho...

Balanço meus pés para frente e para trás dentro de um par de saltos do tipo “me come logo”; tomando outro gole de cerveja. Quando eu era mais jovem, noites como esta pareciam grandes aventuras! Agora, é claro... estou à beira dos meus 25 anos e a piada ficou velha (assim como eu). Meu turno na loja, trabalhando como estoquista em mais uma “maldita-manhã-de-domingo” está a apenas seis horas de distância. Posso sentir um cronômetro marcando o tempo como uma bomba-relógio dentro de mim...

“O tempo está acabando, querida... O tempo está acabando...”

Sorrio enquanto outro cara passa...

Espero que ele se vire e volte...

Talvez espere que ele não volte...

Onde foi que eu errei? Não me entenda mal... Conseguir companhia por algumas poucas horas não é o problema! Uma vez que você reduz as suas expectativas o suficiente, tudo é possível! Mas as milhares de noites de sábado que eu imaginava estarem à minha frente quando eu tinha 16 anos acabaram...
Não importa qual seja o padrão para ir a uma boate: eu sou uma pária (pela idade e pela aparência); caçando aquilo que eu consigo pegar na base da pirâmide social, perto do fim da Cadeia Alimentar. Eu não posso competir com as “Barbies” impossivelmente magras que me cercam...

Barbie e suas amigas estão usando muito preto esta noite – divulgando o estilo retro que abandonei quando tinha 14 anos. Talvez esteja na moda de novo e eu nem mesmo saiba...

Oh, Deus... será que estou tão velha assim? É tão visível assim?

Não atrás da máscara que eu uso! Minha maquiagem está imaculadamente perfeita (uma cuidadosa mistura de branco pálido com o batom preto da própria morte)! Meu cabelo está arrumado do jeito que eu queria! E estou usando a minha calcinha da sorte...

Apesar de sua “sorte” ter se esgotado há muito... muito tempo atrás...

Quando eu começo a suar por causa do calor e da energia desesperada da boate, percebo que chegou aquela hora da semana quando vou para a pista de dança e uso a única habilidade negociável que ainda possuo: eu (ainda) danço!

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