A música parece sempre a mesma
para mim agora. Sentada na mesma boate em outra noite de sábado sem sentido, eu
já nem me importo mais se o som é Funk, Axé, Pagode, Sertanejo Universitário,
Arrocha, Eletrônico ou Rock. Não consigo nem mais diferenciá-las. Os mesmos
ritmos pulsantes sacodem as janelas revestidas de preto da casa noturna, os
mesmos corpos jovens e esguios se contorcem sob a ribombante batida da música
e, mais uma vez, eu cuido da minha cerveja aguada, olhando para a massa de
carne suada diante de mim (como já fiz em tantas noites passadas... noites de
mais para se contar).
O preto ainda está na moda
(como sempre). Então eu me sento em um canto, com a minisaia de couro preto
comprimindo desconfortavelmente as minhas coxas. Quando eu era mais jovem, como
essas outras mulheres – garotas – na pista de dança esta noite; minhas pernas
eram meu maior patrimônio!
Agora eu só tenho um...
Bem... vocês sabem...
Um grande traseiro aquecendo
um banquinho...
Balanço meus pés para frente e
para trás dentro de um par de saltos do tipo “me come logo”; tomando outro gole
de cerveja. Quando eu era mais jovem, noites como esta pareciam grandes
aventuras! Agora, é claro... estou à beira dos meus 25 anos e a piada ficou
velha (assim como eu). Meu turno na loja, trabalhando como estoquista em mais
uma “maldita-manhã-de-domingo” está a apenas seis horas de distância. Posso
sentir um cronômetro marcando o tempo como uma bomba-relógio dentro de mim...
“O tempo está acabando,
querida... O tempo está acabando...”
Sorrio enquanto outro cara
passa...
Espero que ele se vire e
volte...
Talvez espere que ele não
volte...
Onde foi que eu errei? Não me
entenda mal... Conseguir companhia por algumas poucas horas não é o problema!
Uma vez que você reduz as suas expectativas o suficiente, tudo é possível! Mas
as milhares de noites de sábado que eu imaginava estarem à minha frente quando
eu tinha 16 anos acabaram...
Não importa qual seja o padrão
para ir a uma boate: eu sou uma pária (pela idade e pela aparência); caçando
aquilo que eu consigo pegar na base da pirâmide social, perto do fim da Cadeia
Alimentar. Eu não posso competir com as “Barbies” impossivelmente magras que me
cercam...
Barbie e suas amigas estão
usando muito preto esta noite – divulgando o estilo retro que abandonei quando
tinha 14 anos. Talvez esteja na moda de novo e eu nem mesmo saiba...
Oh, Deus... será que estou tão
velha assim? É tão visível assim?
Não atrás da máscara que eu
uso! Minha maquiagem está imaculadamente perfeita (uma cuidadosa mistura de
branco pálido com o batom preto da própria morte)! Meu cabelo está arrumado do
jeito que eu queria! E estou usando a minha calcinha da sorte...
Apesar de sua “sorte” ter se
esgotado há muito... muito tempo atrás...
Quando eu começo a suar por causa
do calor e da energia desesperada da boate, percebo que chegou aquela hora da
semana quando vou para a pista de dança e uso a única habilidade negociável que
ainda possuo: eu (ainda) danço!
* Se você quer ir mesmo para a
pista de dança, clique aqui.